O poeta era uma pessoa grave
o filho nem esdrúxulo nem grave nem agudo
era só um miúdo
o poeta pessoa grave escrevia com
grande força a sua gravidade mas ao
contrário da que todos conhecemos
elevava-se um pouco acima da cadeira
onde outrora ou há cinco minutos se sentara
O poeta olhava do alto com grande gravidade a
folha onde escrevera uns versos que agora lhes não divisava
forma e significado - note-se, ele voava
O filho um miúdo nem grave nem agudo
estivera a brincar com uma caixa de fósforos encontrada
no parque infantil - era uma criança especial -
como o preconceito designa os autistas
vivem numa espécie de hoje eterno, não têm noção
do espaço e do tempo, para eles não existem
as coisas de ontem ou de amanhã,
logo o poeta desceu do seu transe, pediu
ao filho a caixa de fósforos da qual retirou o pauzinho
que de seguida incinerou a folha de
caracteres de forma e significado ignotos,
e agora observando na companhia da criança
cativada pela dança luminosa em volutas de farrapos
antes brancos agora cor de laranja amarelo e azul,
viu carbonizar-se toda a esperança de vir a ser imortalizado
nuns rabiscos de tinta permanente preta
dispostos em linha recta numa folha de papel,
De todos os modos legou o testemunho
ao filho que mais que poeta era já poema,
tal o filho de um peixe que sem saber como já sabe nadar.
Pouco importa, na circunstância, o poeta haver escrito
o poema directamente no seu laptop,
ser estéril, solteiro e rondar os 70 anos de solidão
comemorados precisamente hoje,
dia de Natal.












Comments
Gostei*
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Art lies.
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